terça-feira

Um olhar sobre as artes plásticas no Brasil

por Pedro Jacintho Cavalheiro

Recoser II - P.Cavalheiro - 2008


Os textos a seguir são focados na arte brasileira, seus fatores geradores e desdobramentos. Nosso objetivo é oferecer ao leitor textos sucintos que, longe de procurar esgotar os temas abordados ou até mesmo longe de abordar todos os aspectos contextuais de cada período, possam auxiliar na compreensão e fruição das obras de arte apresentadas neste catálogo eletrônico. A maior pretensão de nossos textos é oferecer pistas, caminhos, para que o interessado empreenda sua viagem na pesquisa sobre a trajetória da arte no Brasil.

Quando estudamos a história da arte no mundo, rapidamente percebemos que para entendê-la em uma linha do tempo, necessitamos de algumas tabelas de conversão porque a contagem do tempo se deu de formas diferentes nas diversas regiões do globo. E, apesar da globalização, existem ainda hoje no mundo diferentes calendários porque a contagem do tempo, não obstante o saber no campo da astronomia, tem um viés cultural.

Para que se tenha uma idéia da variação referencial nos diferentes sistemas de contagem de tempo existentes, tomemos o ano de 1413 quando o grande arquiteto Filippo Brunelleschi (1377-1446), ainda escultor e ourives à época, e seu amigo o genial escultor Donatello (Donato di Niccolò di Betto Bardi; c. 1386-1466), esculpem dois crucifixos em madeira: Donatello para a Igreja da Santa Cruz e Brunelleschi para a Igreja de Santa Maria Novella, ambas em Florença. Na "Caixa de Sapatos" você encontra o texto "Como se Conta o Tempo", onde demonstramos a que ano corresponde, em outros calendários, o ano de 1413.

No Brasil é adotado o calendário Gregoriano, que substituiu o calendário Juliano, desde seu aparecimento em 1582. Em que pese a grande influência africana em nossa arte, especialmente na música, e em nossa cultura; em que pese a influência de culturas indígenas na formação da cultura brasileira; em que pese a influência posterior de vários povos de todos os cantos do planeta que para o Brasil vieram; a base de nossa cultura, por força do processo colonizatório, é européia: da contagem do tempo à estrutura de nossas primeiras universidades.

Os textos que se seguem após este, especialmente os do Século XV até o da primeira metade do Século XX, denotam os movimentos artísticos europeus e seus contextos como referências no caminhar da evolução da arte no Brasil. E há um porquê para isso: a colonização do Brasil é feita, entre acertos e erros, em meio a difusas intenções e motivações diversas, por europeus. Assim, temos aqui uma inescapável conseqüência: nossas artes visuais estarão fundamentalmente relacionadas à arte européia. Por isso é necessário o estabelecimento de relações de causas e conseqüências entre manifestações artísticas européias e brasileiras, e seus contextos sociais, políticos e culturais, ao estudarmos a história da arte no Brasil.

Temos no Brasil muitos brasis diferentes. Um grande corpo com membros distintos de bela complexidade e riqueza cultural. Arte não é doença nem cura: arte é sintoma. A arte é o sintoma que evidencia os estados de um corpo social e, vista sob esse prisma, nos revela muito sobre a vida desse corpo na esteira do tempo. Por isso a importância de preservar o patrimônio artístico de um povo. Preservá-lo é preservar um tipo de registro quase que insofismável porque escrito em toda a parte pela percepção consciente e subconsciente daqueles que o destino quis converter em indicadores sensíveis dos sintomas de seu tempo. Pode-se maquiar a história escrita, contar versões mais adequadas para fatos desairosos, mas é difícil comandar o subconsciente de um artista. Passado o tempo, surgem os que conseguem ler a obra de arte em toda a plenitude de seus significados e, então, a história é resgatada. Tomemos como exemplo Pieter Bruegel, o velho, que pintou em 1568 o quadro "A Parábola dos Cegos", ilustrando a passagem do Evangelho de Mateus, em 15:14, mas fazendo alusão direta ao sistema de poder que testemunhou em sua época.

A radiografia que a arte faz de seu tempo, pode instrumentar-nos com algo muito mais eficaz do que a esperança, tantas vezes vã, tantas vezes irracional, tantas vezes manipulada: a capacidade de ver a realidade, compreender os processos e, a partir disso, construir um futuro sólido.

Os textos aqui apresentados entreabrem algumas portas. Podemos olhar através de seus vãos para ver um pouco de nosso passado ou abrir essas portas, num mergulho maior de pesquisa, para viajar no tempo. Seja bem vindo.

O Século XV

por Pedro Jacintho Cavalheiro

Quadrante - Instrumento de Navegação do Século XV


O Século XV é o século do descobrimento da América. Mas, esse fato aconteceu apenas no final do século, no ano de 1492. No Brasil, os portugueses aportariam somente em 1500 com o fito de tomar posse de seu quinhão de terra do novo mundo. Portanto a história de nossa arte, ainda não começa a ser contada no Século XV, mas uma digressão a esse período nos ajudará a compreender melhor o processo que desembocará no Século XVI e, conseqüentemente, no início da história do Brasil como o conhecemos hoje.

Embora o século XV seja o século em que surge o Renascimento, em 1420, há um percurso entre seu surgimento e sua existência plena, uma vez que em matéria de evolução não há saltos. Além disso, os processos de passagem de situações nebulosas para situações mais claras, no caso passagem da mentalidade medieval para a mentalidade renascentista, sofrerão efeitos semelhantes aos refluxos da maré: avançam e recuam repetidamente até atingir a praia.

O Renascimento acontece em pleno medievo e não apenas porque a data fixada como final da Idade Média seja 1453, quando Constantinopla é capturada pelos turcos otomanos sob o comando do Sultão Maomé II (fato histórico conhecido como “A Queda de Constantinopla”), mas porque as sombras da mentalidade medieval ainda acompanhariam o homem por muito tempo. A mentalidade medieval ainda será objeto de reflexões nos textos sobre os séculos XVI e XVII.

O Quattrocento apresenta uma Europa em grandes ebulições, com países estabelecendo seus territórios em meio a embates e combates constantes. Em 1412, por exemplo, são assinadas as Leis de Valhadolid, que eram um conjunto de decretos de repressão aos Judeus emitidos no reino de Castilla y León durante o reinado de João II de Castilla. Estas Leis foram precursoras da criação dos guetos. O Quattrocento ainda assiste a uma guerra que entra para a história como Guerra dos Cem Anos, que se iniciara no século XIV envolvendo França e Inglaterra, e que durou 116 anos.

É no cenário dessa guerra que surge a figura singular de Joana d’Arc, que comandando um exército de 4.000 homens, sob orientação das vozes que ouvia, libertou a cidade de Orléans do invasor inglês e levou Carlos VII a ser coroado Rei da França, em 1429, na Catedral de Reims. A mesma Joana d’Arc, em processo inquisitório promovido por ação isolada da Igreja Católica da Inglaterra, é condenada em 1431 a ser queimada viva em uma fogueira, na cidade de Rouen sob acusação de heresia. Vinte e cinco anos depois, em 1456, o Papa Calisto III declarou Joana inocente, invalidando o processo que a condenara. O Século XV é um tempo de sombras e luzes, fluxos e refluxos de uma mesma maré que luta para atingir a terra firme das conquistas éticas e sociais. Depois de um esquecimento de muitos anos, a personagem Joana d’Arc é resgatada e, em 1920, declarada Santa pelo Papa Bento XV.

O Quattrocento apresenta uma Igreja Católica vivendo o Grande Cisma (1378 – 1417) que chega criar no princípio do século um momento com três Papas, todos reclamando o direito ao trono de Pedro ao mesmo tempo, em um estabelecimento de Igreja-Estado com Papas-Soberanos-Generais, com enorme influência em todo o jogo de poder no velho continente. Sob o conflito político do cisma, o poder temporal da Igreja não podia ainda ser ameaçado por idéias reformistas. Assim, em 1415 o acadêmico, pensador, teólogo e lingüista tcheco Jan Hus, cujas idéias precedem o movimento protestante, é condenado pelo Concílio Ecumênico de Constança (Konstanz), Alemanha, onde é queimado vivo. Hus, também criador do sistema de acentuação da língua tcheca, morre cantando na fogueira. Em 1416, Jerônimo de Praga, principal discípulo de Jan Hus, também acadêmico, teólogo e igualmente precursor do protestantismo, é condenado, assim como seu mestre, a ser queimado vivo. Condenado e executado no mesmo dia, em 30 de maio. Como se vê o Renascimento não dissipa de imediato as sombras medievais da mentalidade humana, mas é uma semente fundamental plantada em solo europeu.

O Quattrocento apresenta também uma Europa ávida de ampliar seus horizontes. Época de navegações que redesenham o continente europeu como, por exemplo, acontece com Portugal que em 1415 cria a Escola de Sagres e deflagra um grande ciclo de navegações. Esse ciclo promove o achamento das próprias terras portuguesas como ocorreu em 1418 quando o navegador português João Gonçalves Zarco, escudeiro do Infante D. Henrique, desembarcou na Ilha de Porto Santo e, em 1419, na Ilha da Madeira, ambas no arquipélago da Madeira. Em 1427, o navegador português Diogo de Silves descobriu as ilhas do grupo central e oriental do arquipélago dos Açores e somente em 1450, outro navegador português, Diogo de Teive, descobre a Ilha das Flores, no mesmo arquipélago.

Esta é a época do início das grandes navegações com a invenção portuguesa da Caravela, que cruzará oceanos. Em 1434, o navegador português Gil Eanes consegue, após quinze tentativas, dobrar o Cabo Bojador, na costa do Saara Ocidental, no Marrocos, graças ao novo invento. Em 1446, o navegador e explorador português Álvaro Fernandes chega à Guiné-Bissau, costa ocidental da África.

Como dissemos, o Quattrocento apresenta, o surgimento de um momento emocionante da emancipação da alma humana a que se chamou Renascimento. O que não significa que a luz se tenha feito de imediato. Pelo contrário. Em 1434 é encontrado ouro na região da Guiné. Em 1441, chega a Portugal o primeiro carregamento de escravos trazidos da África. Em 1452 o Papa Nicolau V (Tommasso Parentuacelli di Sarzana) autoriza Afonso V de Portugal a escravizar os “infiéis da África Ocidental”, ao sul do Cabo Borjador, através da bula papal “Dum Diversas”, dando assim legitimação “cristã” a toda sorte de violências praticadas contra os africanos, assim como ao roubo de ouro do continente negro. Ouro que teve papel fundamental no financiamento das grandes navegações.

Em 1454, o Papa Nicolau V concede, por expedição de bula, o monopólio das expedições marítimas ao Infante D. Henrique. Em 1455, o mesmo Papa expede a bula “Romanus Pontifex” que reconhece aos reis de Portugal a posse das terras e mares já descobertos ou por descobrir. Tal documento representa o conhecimento, por direito internacional, do espírito de cruzada dos descobrimentos henriquinos. Esse documento confirmaria também o direito de Portugal escravizar os infiéis africanos, já exarado na bula “Dum diversas”.

Em 1460, o navegador e explorador português Diogo Gomes (de Sintra) descobre o Arquipélago de Cabo Verde, na África. Até meados do século XIX, Cabo Verde foi importante entreposto no tráfico de escravos para os Estados Unidos da América, para o Caribe e para o Brasil.

Em 1480, os reis católicos de Castela e Aragão, Isabel e Fernando, obtêm do Papa a autorização para a fundação do Tribunal do Santo Ofício: a Inquisição. A Inquisição já começara em 1183, pela ação dos delegados pontifícios enviados pelo Papa Lúcio III (Ubaldo Allucingoli) para reprimir os Cátaros na cidade de Albi, ao sul da França, e reiniciado oficialmente com a bula papal “Licet ad capiendos” de Gregório IX, em 1233. Mas, é com o Tribunal do Santo Ofício que a Inquisição se torna uma ferramenta da fé a serviço da unificação de um Estado, no caso a Espanha, e se torna uma das mais violentas instituições da história da humanidade. Toda a história do período é pontuada por esse constante refluxo de maré que ora avança, ora recua e puxa para o fundo.

Em 1481, o Papa Sisto IV (Francesco Della Rovere) expede a bula papal “Aeterni regis” confere todos os territórios a Sul das Ilhas Canárias a Portugal. Em 1483, o navegador português Diogo Cão descobre a foz do Rio Congo. Em 1488, outro navegador português Bartolomeu Dias, dobra pela primeira vez o Cabo das Tormentas, depois chamado de Cabo da Boa Esperança, que houvera sido descoberto em 1485.

Em 1492 – Cristóvão Colombo parte da Espanha em 3 de agosto e chega em 12 de outubro às Bahamas. Este feito marca o descobrimento da América. Em 1494 é assinado o Tratado de Tordesilhas, no qual Portugal e Espanha dividem entre si a parte do mundo novo já descoberto e o que estava ainda por descobrir.

Seguem as grandes navegações. Em 1498, o navegador português Vasco da Gama chega à Ilha de Moçambique. Em 1498, o navegador português Duarte Pacheco Pereira, segundo algumas versões, teria chegado ao Brasil, dois anos antes de Pedro Álvares Cabral. Em 1499, o navegador português Vasco da Gama volta à Portugal depois de sua bem sucedida viagem à Índias. EM 1499, o navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón parte da Espanha em viagem que teria atingido a costa brasileira três meses antes de Pedro Álvares Cabral.

Em 1500, o navegador português Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil em 22 de abril e toma posse da terra em nome do rei D. Manuel I de Portugal. Quatro dias depois já se celebra a primeira missa no Brasil. A Cabral é atribuído oficialmente o descobrimento ou achamento do Brasil.

O Século XV foi uma fase de grandes turbulências, guerras, perseguições, disputas por territórios, grandes navegações, mas falemos agora de algumas luzes do Renascimento, que trouxe um momento mágico para história da arte e do pensamento no mundo.

É emblemático o fato de logo ao raiar do século, em 1401, ter nascido aquele que seria o primeiro grande pintor e mestre do Quattrocento na Renascença Italiana: Masaccio (m.1428). Em 1436, o arquiteto Filippo Brunelleschi (1377-1446) termina a construção da cúpula da Basílica Santa Maria del Fiore, Duomo di Firenze. Em 1440, o inventor alemão Gutenberg (Johannes Gensfleisch zur Laden zum Gutemberg, c.1390-1468) desenvolve tipos móveis, individuais de metal e tintas à base de óleo para impressão. Com isso dá à luz a prensa gráfica móvel. Esse evento marca a invenção da imprensa. Em 1456, o matemático e cosmógrafo alemão Hans Müller (Johannes Müller von Königsberg, 1436–1476), também chamado Regiomontanus ou Regiomontano (tradução latina para Königsberg), inventa os sinais de + e -.

Em 1469, é encontrada a peça de teatro francesa La farce de maître Pathelin (A Farsa do Advogado Pathelin). Essa peça composta no fim da Idade Média, por volta de 1460, foi encontrada somente em 1469 e impressa pela primeira vez em 1474. De autor desconhecido, é considerada a primeira comédia da literatura francesa e uma das mais importantes obras do teatro medieval. Satírica, a peça critica os comerciantes e os homens da Lei do século XV, as classes sociais então mais importantes da França. Todos os personagens são velhacos e Pathelin, o protagonista, mente cinicamente. Atribui-se a autoria dessa peça a Pierre Blanchet ou a Antoine de La Sale.

Em 1473, por determinação do Papa Sisto IV (Francesco Della Rovere), inicia-se a construção da Capela Sistina, nome que homenageia o Papa Sisto IV. O autor do projeto, inicialmente despretensioso, foi o arquiteto e escultor italiano Baccio Pontelli (1450-1492). Construída entre 1473 e 1484, sob a supervisão de Giovannino de' Dólci (? —1486) teve a participação de alguns gênios do Renascimento como: Perugino, Botticelli, Ghirlandaio, Rosselli, Signorelli, Pinturicchio, Piero di Cosimo, Bartolomeo della Gatta, Rafael e outros. Alguns anos mais tarde, a Capela Sistina recebeu a colaboração de um dos maiores gênios artísticos de todos os tempos com seus afrescos do teto e do altar: Michelangelo Buonarroti.

Em 1480, outro gênio, o inigualável Leonardo da Vinci inventa o pára-quedas. Em 1494, é publicado na Itália o tratado de matemática do Frei Luca Pacciolo “Summa de Arithmetica, Geometria, Proportioni e Proporcionalita”. Esse tratado incluía um capítulo sobre registros contábeis.

A produção artística e intelectual do Renascimento é bem conhecida, mas vale dizer que ela coloca o homem no centro do universo ideológico, em um tempo de arte feita para a fé. Valores humanistas da antigüidade clássica renascem. Na pauta os grandes filósofos da Grécia Antiga, o gosto pela pesquisa, pela investigação. A busca por entender a anatomia humana na dissecação secreta de cadáveres e de, ao mesmo tempo, entender a alma humana, entre sentimentos de “agonia e êxtase” tem seu operário maior em Michelangelo, senhor de todas as artes. A necessidade de entender o mundo desde sua topografia à sua cosmologia e de, ao mesmo tempo, inventar um mundo novo tem sua mais significativa expressão em Da Vinci. É a luz que se acende para iluminar as trevas medievais. Levaria ainda algum tempo, mas o mundo não voltaria a ser o mesmo.

Século XVI

por Pedro Jacintho Cavalheiro


O Século XVI é para o Brasil o século de seu “descobrimento” ou “achamento”. Em que pese o fato de que discussões existem em torno de visitas de outros europeus à costa brasileira antes da chegada da expedição de Pedro Álvares Cabral a Porto Seguro, na Bahia, como a discussão cercada de maior verossimilhança sobre a vinda do navegador espanhol Vicente Yáñez Pinzón ao Cabo de Santo Agostinho, na atual Praia do Paraíso em Pernambuco, quase três meses antes de Cabral, o feito da colonização do Brasil é, indiscutivelmente, português.

O conhecimento da existência da América era obviamente prévio: Cristóvão Colombo descobre o novo continente em 1492 e Espanha e Portugal assinaram em 1494 o Tratado de Tordesilhas, dividindo entre os dois reinados as terras do Novo Mundo, inclusive as que ainda estavam por explorar. O conhecimento da existência das terras brasileiras era também provavelmente prévio. Conta-se que o navegador português Duarte Pacheco Pereira, que houvera assinado o Tratado de Tordesilhas, na "qualidade de contínuo da casa do senhor rei de Portugal", teria comandado uma expedição secreta para reconhecer as zonas situadas para além da linha de demarcação de Tordesilhas, em 1498, por ordem de D. Manuel I. Essa expedição de reconhecimento teria partido do Arquipélago de Cabo Verde e chegado em algum ponto da costa entre o Maranhão e o Pará, entre os meses de Novembro e Dezembro daquele mesmo ano. Depois teria navegado pela costa norte e alcançando a foz do rio Amazonas e a ilha do Marajó. Assim o Brasil teria sido descoberto em 1498 por Duarte Pacheco Pereira. Contudo, o ano de 1500 será o marco oficial do início do processo colonizatório português em solo brasileiro. É o ano de nascimento do Brasil tal como o conhecemos hoje: multiétnico e lusófono.

Na “Terra das Palmeiras”, Pindorama em Tupi-guarani, existiam culturas pré-cabralinas que se perdem nos evos dos tempos. Os registros dos povos, que antecedem a presença colonizadora em nossa terra, remontam ao Paleolítico Superior. Contudo, esta breve digressão sobre o Século XVI não tratará da arte indígena e da arte rupestre, presentes no Brasil, porque cada uma delas pediria capítulo à parte.

A chegada do colonizador não corresponde a uma decisão de colonizar para construir um novo país. Longe disso, a motivação do colonizador é a exploração de riquezas a começar pelo valioso pau-brasil, de cuja madeira se extraía um corante vermelho que servia para tingir tecidos e fabricar tinta de escrever. Com ele se fabricava móveis e embarcações. Por isso, era natural que outros povos europeus tentassem tomar para si um pedaço desse novo mundo que instigava a imaginação dos aventureiros. Assim, as primeiras investidas francesas, pós-descobrimento, à costa brasileira já ocorrem em 1504.

Nos primeiros 30 anos de domínio, o egresso português limitou-se à instalação de feitorias rudimentares encarregadas da extrair o pau-brasil de nossa mata Atlântica e enviá-la para a Europa. Foram 30 anos de exploração da costa brasileira também por holandeses, ingleses e, principalmente, franceses além dos corsários. Com esse mesmo escopo, de tirar proveito, os franceses chegam a Pernambuco em 1529. Para assegurar seu domínio sobre a nova terra, Portugal envia sua primeira expedição propriamente colonizadora, chefiada por Martin Afonso de Souza, em 1530.

Enquanto isso, a Europa vive o Renascimento. Desde a chegada de Cabral até a chegada de Martin Afonso, passam-se 30 anos de fulgor renascentista no velho continente. Mencionamos aqui alguns fatos ocorridos na Europa nessas três décadas de presença do colonizador europeu no Brasil, para que se tenha uma dimensão do que acontecia no Velho Continente nesse período. Vejamos.

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No ano de 1500, Albrecht Dürer (1471-1528) pinta seu autorretrato, o primeiro reconhecido como tal pela história da arte, e em Lisboa começa a construção do exuberante Convento dos Jerônimos, obra prima em estilo Manuelino. Em 1501, Michelangelo Buonarrotti (1475-1564), dá à luz a magnífica “Pietà” e com atrevimento esculpe seu nome na faixa que atravessa transversalmente o busto de Maria. Em 1504, Michelangelo conclui sua grande estátua de Davi: quatro metros de altura em bloco único de mármore. Em 1505, Hieronymus Bosh (1450-1516) conclui o tríptico “Jardim das Delícias Terrenas” antecipando-se ao Surrealismo e ao Simbolismo. O arquiteto Donato Bramante (1444-1514) inicia a construção da Basílica de São Pedro em Roma. Em 1507 Leonardo Da Vinci (1452-1519) da à luz sua famosa pintura “La Gioconda” ou “Monna Lisa” e Rafael Sanzio (1483-1520) pinta a “Madona com o Menino Jesus e São João Batista”. Entre 1508 e 1512, Michelangelo pinta o teto da Capela Sistina e se torna o precursor do Maneirismo e do Romantismo. Mathias Grünewald (1480-1528) entre 1512 e 1515, realiza seu Retábulo de Isenheim. Grünewald foi um maneirista precursor do Realismo, do Simbolismo e do Expressionismo. Também entre 1512 e 1516, Michelangelo “liberta do mármore” seu magnífico “Moisés”. Em 1513 Nicolau Maquiavel (Niccolò Machiavelli, 1469-1527) escreve “O Príncipe”.

Em 1516, o filósofo italiano Pietro Pomponazzi (1462-1525), lança o tratado “Da Imortalidade da Alma” (De immortalitate animae) onde questionou a interpretação que São Thomás de Aquino fizera de Aristóteles e afirmou que as evidências sugerem que a alma é imortal. No mesmo ano Thomas More (1478-1535) escreve o livro “Utopia”.

Ainda em 1516 o teólogo e humanista neerlandês Erasmo de Rotterdam (Desiderius Erasmus Roterodamus, 1466-1536), publica sua edição crítica no Novo Testamento, que incluía uma tradução em Latim e manuscritos há pouco tempo descobertos. Foi na segunda edição dessa obra que o termo “Testamentum” apareceu em substituição ao termo “Instrumentum”. Foi a primeira vez que um acadêmico competente e liberal envidou pesquisa para averiguar o que os escritores do Novo Testamento teriam realmente escrito.

Em 1517, Martinho Lutero (Martin Luther, 1483-1546) publica as “95 Teses” que dariam origem ao próprio Luteranismo, ao Protestantismo e ao cisma protestante. Este fato geraria uma reação da Igreja Católica, sentida ainda nos séculos XVII e XVIII, que influenciariam a cultura e arte não só na Europa, mas também nas colônias do novo mundo. Veja mais a respeito no texto sobre o Século XVII. A base para os estudos científicos da Bíblia ocorridos durante a reforma foi a obra de Erasmo de Rotterdam, aqui mencionada.

Em 1520, em Lisboa, concluí-se a construção da magnífica Torre de Belém, em estilo Manuelino, que é hoje considerada pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade. Em 1523, Hans Holbein, o Jovem (1497-1543) pinta o retrato de Erasmo de Rotterdam e em 1527, pinta o retrato de Thomas More. Em 1528, Dürer publica seu Tratado das Proporções do Corpo Humano. Em 1529, Lucas Cranach, o velho (1472-1553), pinta o retrato de Lutero. Em 1530 acontece a fundação do Collège de France em Paris, França.

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É claro que não relacionamos aqui toda a produção intelectual e artística do Renascimento, ocorrida entre 1500 e 1530. Os artistas e pensadores aqui citados produziram outras obras nesse período e muitos outros, de grande importância, realizavam também. Contudo, pelos exemplos mencionados podemos perceber que a Europa vive um momento riquíssimo de grande ebulição intelectual e artística. Um momento de reação às sombras da Idade Média.

No Brasil Colônia as sombras apenas começavam a pairar. Foram 30 anos de extração de pau-brasil, com a ajuda de nativos aliciados com presentes. Os portugueses não se fixaram na nova terra nesse período e o medo de perdê-la resulta na primeira expedição colonizadora. Agora a missão de Martin Afonso era ocupar o território. Assim, ao chegar em 1530, funda Igaraçu, em Pernambuco, mas o local continuaria a ser habitado pelos índios Caetés até 1535. Em 1531, constrói um fortim no Rio de Janeiro. Em 1532, funda a Vila de São Vicente, em São Paulo, a primeira fundada pelos portugueses na América. Em 1536 acontece a fundação de Santos, em São Paulo (que seria elevada à categoria de Vila em 1545), por Brás Cubas. A partir disso, sucedem-se fundações de vilas e cidades, das quais mencionamos apenas algumas.

Em 1539 Inácio de Loyola (1491-1556) funda a Companhia de Jesus, em Montmartre, Paris. Este fato é interessante porque os Jesuítas serão personagens importantes no processo colonizatório, embora a ordem dos Jesuítas fosse ainda nova e tivesse sido fundada para fazer frente ao protestantismo.

Com o objetivo de acelerar a ocupação portuguesa na colônia, D. João III cria o sistema das Capitanias Hereditárias, em 1534. Esse sistema duraria pouco tempo, sendo extinto por D. João III em 1548. Serviu para uma rápida ocupação do território, mas deixou reflexos em nossa cultura que permanecem até os dias de hoje.

Agora a colônia precisava de pontes, fortificações e igrejas. Começam a vir de Portugal os primeiros artífices. Artistas seriam improvisados para atender às necessidades catequéticas e algumas imagens religiosas, maneiristas, seriam trazidas de Portugal. Em 1549 chega à Bahia o mestre de obras Luís Dias, trazido por Tomé de Souza, nomeado por D. João III, Governador Geral da colônia.

Nessa mesma expedição de Tomé de Souza chegam vários Jesuítas que irão fundar em 1554 o Colégio de São Paulo, nascedouro da capital paulista. Igrejas, conventos e mosteiros seriam erguidos na colônia durante o século XVI. A Igreja dá sustentação ao projeto português de colonização.

Em 1555, no Rio de Janeiro, os franceses criam a França Antártica. Em 1565, Estácio de Sá funda São Sebastião do Rio de Janeiro e em 1567, os franceses são expulsos daquela cidade. Em 1594, traficantes franceses instalam-se no Maranhão e tentam fixar-se na terra.

No campo das artes plásticas, a arte está a serviço da fé católica, trazida pelo colonizador. Existem muitas obras de arte desse período e também dos séculos XVII, XVIII e início do século XIX, cujos autores são desconhecidos.

Contudo, podemos mencionar alguns artífices cujos registros foram preservados até os dias de hoje: Manuel Álvares - pintor jesuíta; Belchior Paulo - pintor jesuíta; João Gonçalves Viana - escultor (criador das primeiras imagens religiosas no Brasil); Manuel Sanches - pintor; Francisco Dias - arquiteto jesuíta; Frei Francisco dos Santos - arquiteto e Gaspar de Samperes - arquiteto e engenheiro jesuíta.

Nesse período difícil e nesse mundo distante física e intelectualmente de uma Europa renascentista e tão distante de uma Portugal que no Século XVI assiste ao nascimento do poema épico “Luzíadas” de Luís Vaz de Camões (1524-1580) e em meio a artífices religiosos ou não, profissionais ou improvisados, acontece em 1595 um fato emblemático: o nascimento na cidade de Olinda, Pernambuco, da primeira pintora brasileira, Rita Joana de Souza que morreria aos 23 anos de idade, em 1618. Já a arte de nossa terra nasceria muito tempo depois, na manjedoura do Barroco brasileiro.

Século XVII

por Pedro Jacintho Cavalheiro

Nossa Senhora da Conceição com cabelos e traços fisionômicos indígenas
Arte Misioneira dos Sete Povos das Missões

Acervo do Museu Julio de Castilhos



O Século XVII nasce e termina Barroco na Europa. O Barroco europeu tem seu início no final do Século XVI, por volta de 1590, e terminará somente por volta de 1720, embora seus sinais por lá perdurem até meados do Século XVIII. Portanto, o Barroco europeu será a linguagem plástica de todo o Século XVII no velho continente. Para falar do Século XVII no Brasil é preciso olhar um pouco para trás na história da Europa. A transição do Medievo para a era Moderna acontece sem saltos, como é comum a toda transição. Embora a idade média tenha sido um advento europeu, seus reflexos seriam sentidos tardiamente no novo continente. Tardiamente porque o Brasil, por exemplo, nasce em pleno período renascentista, mas a mentalidade colonizadora terá as cores, ou melhor, as sombras medievais. Essas sombras estarão presentes na arte barroca. O Barroco surge depois do Renascimento como produto de um período de forte contraste: de um lado o antropocentrismo e a racionalidade renascentista e de outro lado o tipo de espiritualidade e emoção da Idade Média. Tal contraste se dá porque aquele era um momento em que a Igreja Católica trabalhava para recuperar o espaço perdido com o cisma Protestante (Séc. XVI) e Monarcas se atribuíam poderes divinos, mas a experiência e a filosofia renascentista já estão indelevelmente presentes na cultura européia. Assim, o Século XVII, apresentará quase um retrocesso, quase um mergulho no obscurantismo medieval, que incluiu a sustentação de uma Inquisição, que marcou presença na América, em tribunais Católicos e Protestantes, e que só terminaria por completo em meados do Século XIX. Essa contradição entre o obscurantismo medieval e o humanismo e racionalidade renascentista é a base estética do Barroco europeu. Não é por acaso que essa escola recebe o nome de uma pérola que nasce imperfeita, como que amarrotada. Essa contradição será a característica marcante do Barroco, que traz o homem como centro, mas em cenários de sombras e algumas poucas luzes. É o que se pode observar nas obras de grandes mestres do Barroco europeu como, por exemplo, Caravaggio e Velázquez.

No Brasil são criadas as Missões Jesuíticas, em 1610, o que redundaria em forte impacto sobre a cultura indígena e, naturalmente, sobre sua arte. O Século XVII é um período de afirmação do domínio português na colônia, mas esse domínio enfrentaria conflitos com outros povos da Europa. Em 1612 os franceses, que aqui passaram a se fixar desde o Século XVI, fundam a cidade de São Luís do Maranhão, mas em 1615 Portugal consegue expulsá-los da colônia. O interesse dos franceses, naquele momento, era de exploração e por isso não chegaram a deixar contribuição significativa no campo das artes. Em 1630 os holandeses invadem Pernambuco e em 1637 o Conde Maurício de Nassau (Johann Mauritius van Nassau-Siegen, 1604-1679) torna-se governador do Brasil holandês. Amante da arte, Nassau traz da Holanda os artistas Frans Post (1612-1680), Albert Eckhout (1610-1665) e outros. Em 1644 Nassau volta para a Europa levando com ele Post e Eckhout.

Em 1648 Kaspar van Baarle (mais conhecido como Caspar Barlaeus) publica na Holanda seu relato do Império colonial holandês no Brasil, baseado no período de Nassau. Essa publicação chamou-se “História dos Feitos Recentemente Praticados Durante Oito Anos no Brasil e Noutras Partes sob o Governo de Wesel, Tenente-General de Cavalaria das Províncias-Unidas sob o Príncipe de Orange, de Caspar Barlaeus” e já apresentava mapas do Ceará, da Paraíba, de Pernambuco e de “Pernambuco Boreal”, além de muitas ilustrações daquela região. Outra publicação de conteúdo semelhante foi feita na Holanda por Franciscus Plante, que fora Capelão de Nassau.

Igualmente notável é a produção científica dos holandeses, sob o comando de Nassau, no Brasil. Dela mencionamos a “Historia Naturalis Brasiliae” de Willem Piso (1611-1678) – autor dos quatro primeiros livros, Georg Marcgrave (1610-1644) – autor dos sete livros seguintes, Joannes de Laet (1581–1649) – autor do oitavo livro e colaboradores. Nessa obra encontram-se 429 ilustrações feitas pelos artistas da comitiva de Nassau, algumas xilogravuras de Marcgrave e folha de rosto ilustrada por Theodoro Matham. A obra inicia com quatro livros sobre a Medicina brasileira da época, traz sete livros sobre nossa flora e fauna, sendo três livros sobre botânica, um livro sobre peixes, um sobre pássaros, um sobre quadrúpedes e serpentes, um sobre insetos e um último que descreve a região nordeste brasileira e seus habitantes. Nessa última parte seu autor Laet incluiu um grande vocabulário Tupi compilado pelo Padre José de Anchieta. Por este sucinto relato já é possível aquilatar a grande contribuição que Nassau deixou para o Brasil.

No mesmo ano da publicação daquelas duas obras na Holanda, 1648, explode a primeira Batalha dos Guararapes e em 1649, a segunda. Essas duas batalhas travadas entre portugueses e holandeses no Monte Guararapes colocaria fim às invasões holandesas no Brasil. Em 1654 os holandeses seriam expulsos definitivamente da colônia, mas Frans Post ainda pintaria seu último quadro brasileiro em 1669, “Paisagem Pernambucana”. O olhar europeu e barroco dos artistas holandeses plasmaria imagens que, embora não revelassem a luminosidade tropical, se tornariam importantíssimo registro iconográfico da terra brasileira e suas gentes no Século XVII.

Em 1693 a descoberta de ouro em Minas Gerais mudaria o curso da história do Brasil e da arte brasileira. A escultura no Barroco europeu tem sua exuberância caracterizada pelo predomínio de linhas curvas e drapeados das roupas como, por exemplo, em Bernini (1598-1680), mas o colonizador banhará com ouro brasileiro sua arte barroca, especialmente nos interiores das igrejas e nas imagens em madeira. O Barroco brasileiro também será dourado, porém será a expressão artística de uma gente sofrida e em luta pela sua liberdade e por isso apresentará características muito diferentes do Barroco europeu.No Século XVII a arte feita no Brasil tem um viés religioso e é, em sua grande maioria, realizada por artífices vindos de Portugal. São arquitetos, engenheiros e religiosos que constroem, esculpem e pintam muito mais para atender a necessidades militares, litúrgicas e catequéticas do que artísticas. Mas dentre eles destacaram-se alguns de grande qualidade técnica e expressiva.

São artífices de destaque nesse período: Francisco Frias, engenheiro militar; Padre Francisco Dias, arquiteto; Frei Agostinho da Piedade, escultor; Frei Macário de São João, arquiteto; Frei Agostinho de Jesus, escultor; Frei Domingos da Conceição, escultor; Frei Ricardo do Pilar, pintor; Capitão Antônio Franscisco de Matos, mestre construtor e Lourenço Veloso, pintor.

De qualquer forma a arte produzida nesse período é um registro importante porque nos dá uma idéia do universo cultural posto à mesa de um Brasil em formação. O olhar dos holandeses é o olhar do observador que mostra de fora para dentro o universo exótico do novo mundo. Estudar esse olhar é como assistir a externas de um filme que narra a nossa história. O olhar do colonizador português mostra-nos o universo mental do Brasil colônia. Estudar esse olhar é como assistir a cenas internas do mesmo filme. A análise desses dois olhares deve ir além das questões formais. Se de um lado temos o fazer do artífice profissional e de outro o fazer do artista improvisado, mais preocupado com a utilidade prática do seu artefato. Temos no todo a narrativa complexa do que foram aqueles tempos do Brasil colônia.

Século XVIII

por Pedro Jacintho Cavalheiro

Linguetas de ouro da Real Casa de Fundição de Vila Rica
Ouro Preto - Minas Gerais


O Século XVIII poderia ser chamado de “Século da Mudança”. Passada a escuridão da Idade Média e os primeiros esforços por acender luzes nas almas e nas sociedades do ocidente, durante o Renascimento, o Século XVIII veria o alvorecer de novos paradigmas para a convivência humana. Embora esses arrebóis precisassem de tempo para atingir a plena luz do dia, já contavam com alguma legitimação institucional. Nesse sentido, o período traz a ebulição de um processo que desembocaria em dois marcos umbilicais: o início da publicação da “Enciclopédia”, na França, em 1751 e a Declaração dos Direitos do Homem, em 1789. Esses dois fatos, especialmente o segundo, viriam a desenhar uma nova ordem mundial, sonhada, desejada e ainda por conquistar até hoje, em escala mundial, em sua plenitude.

Em terras brasileiras o Século XVIII inicia sob conflitos entre colonizadores portugueses e colonizados. Em 1708, a Guerra dos Emboabas acaba por mandar 20% de nosso ouro para “os quintos dos infernos” e faz nascer oficialmente a Capitania de São Paulo e Minas, em 1709. No Estado de Pernambuco, a Guerra dos Mascates acontece em 1710 e, embora local, espalha o sentimento anticolonialista e autonomista que ajuda a fomentar o espírito libertário no Brasil. Em 1719, as Casas de Fundição, como eram chamadas, foram criadas com o objetivo de arrecadarem impostos sobre o ouro e combater seu comércio ilegal. A Tensão entre os mineradores e a administração portuguesa chega ao limite e em 1720 explode uma revolta em Vila Rica: cerca de 2000 pessoas arrombam a casa do Ouvidor-Mor para exigir do governador o fim das casas de fundição e a diminuição da taxação sobre o ouro. Sem falar do ouro contrabandeado para a Europa dentro de Santos entalhados em madeira e propositalmente ocos: os "Santos do pau oco". Como resposta, a coroa portuguesa prende vários mineiros, entre eles Felipe dos Santos que identificado como líder é condenado à morte. Para aumentar seu controle social sobre a região, a coroa divide a Capitania de São Paulo e Minas criando a capitania de Minas Gerais, independente da de São Paulo.

A ânsia por liberdade vai crescendo na colônia. Esse mesmo espírito libertário, como não poderia deixar de ser, está presente na arte. Vivemos um período em que viceja o Barroco em nosso país e esse Barroco é diverso daquele presente em Portugal porque já está eivado do suor que emana da nascente cultura brasileira. O Barroco brasileiro tem sua própria personalidade e é, por assim dizer, tão inconfidente quanto um Aleijadinho que emergirá nos profetas de Congonhas do Campo, no amanhecer do século XIX, porque grita uma estética própria, cabocla, parda, cafuza, já livre em sua essência e identidade. Leia também, o texto “Anônimo Séc. XVI a XIX ” em “Consulta – Lista de Artistas”.

No Velho Continente, é o Rococó que predomina, embora estejam presentes as influências do Barroco e as do Neoclassicismo que desponta com força ainda nesse período. O século XVIII é o tempo de Antoine Watteau, Giovanni Battista Tiepolo, François Boucher, Thomas Gainsborough, Joshua Reynolds e de Thomas Lawrence, entre outros. Na crítica e sátira social, prenunciando o Realismo que viria a surgir na segunda metade do Século XIX, temos William Hogarth. Na linha de frente do Neoclassicismo temos Jacques-Louis David e à frente de todos os “ismos”, Francisco José de Goya y Lucientes.

Para o Brasil-colônia, as mudanças são, via de regra, trágicas. Nesse século acontece o Tratado de Madrid entre Portugal e Espanha, em 1750, que ampliou as fronteiras portuguesas ao sul do Brasil e que acabou por promover um verdadeiro massacre dos índios Guaranis: as "Guerras Guaraníticas". No final do Século XVIII, os Guaranis sobreviventes já haviam sido escravizados e alguns poucos estavam refugiados. Para falar pouco sobre a cultura indígena, ações colonizadoras, catequizadoras, bem ou mal intencionadas, levam o índio brasileiro a ser aculturado, escravizado ou morto. No mesmo período o Marquês de Pombal proíbe em nossa terra, sob pena de prisão, o uso de qualquer outra língua que não fosse a portuguesa. Cerca de 820 línguas indígenas desaparecem e com elas seu universo semiótico, sua cultura e arte. Esses e outros fatos viriam a fomentar mais e mais o desejo de liberdade na colônia.

Os meios de comunicação são lentos no Século XVIII e o intercâmbio cultural se dá, com maior eficácia, por vontade e determinação dos detentores do poder. O Brasil é colônia de exploração e por isso, embora o colonizador seja europeu, é mantido à distância dos movimentos artísticos emergentes na Europa. Se por um lado esse distanciamento coloca o Brasil na retaguarda de um Barroco que na Europa já se esgotara por volta da segunda década do Século XVIII, por outro lado dá espaço para o desenvolvimento de uma linguagem plástica, que embora de características barrocas, é única e se transforma na primeira manifestação artística genuinamente brasileira.

Contudo, a influência que o colonizador não consegue evitar é a do pensamento. Não é por acaso que no Velho Continente a Revolução Francesa irrompe em 1789 e com ela o mundo vê nascer a Declaração dos Direitos Humanos. Enquanto por aqui, no mesmo ano de 1789 eclode a Inconfidência Mineira. Analisar as causas, circunstâncias e conseqüências dos dois eventos foge ao escopo deste texto, mas é perceptível que os ventos da liberdade sopravam de continente para continente. Essa liberdade brota espontaneamente no Barroco brasileiro e se manifesta em obras como as intrigantes figuras dos Passos da Paixão, realizadas pelo Aleijadinho para o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, entre 1796 e 1798, na cidade mineira de Congonhas do Campo, sob calor da dor causada pelo desmantelo violento da Inconfidência Mineira que culminou com a morte e esquartejamento de Tiradentes em 1792. Aleijadinho cria figuras de soldados híbridas entre romanos e portugueses, conferindo-lhes um ar caricato e um Jesus que aparece sempre com uma gritante marca de corda cor de sangue no pescoço. Uma obra que faz velada referência ao martírio de Tiradentes enquanto relata a paixão de Cristo. Falando em Cristo, o Brasil ainda haveria de esperar por 33 anos por sua independência, após o advento da Inconfidência Mineira. Uma coincidência.

Além de Antonio Francisco Lisboa - conhecido como "O Aleijadinho" e Manuel da Costa Ataíde, chamado "Mestre Ataíde" (também mencionados no texto recomendado acima), durante todo o século XVIII surgiriam por todo o país edificações, especialmente fortificações, palácios governamentais e muitas igrejas, notadamente barrocos. Seus arquitetos, escultores e pintores, nascidos aqui, vindos na maioria dos casos de Portugal e por vezes de outros países europeus, inscreveram seus nomes na história da arte brasileira. Podemos mencionar nomes como os de Antonio José Landi (arquiteto italiano); Antônio Pereira de Souza Calheiros (arquiteto); Antônio Rodrigues Belo (pintor); Antônio Simões Ribeiro (pintor); Bernardo Pires (pintor); Caetano da Costa Coelho (pintor); Francisco João Róscio (arquiteto); Francisco Nunes Soares (arquiteto); Francisco Xavier de Brito (pintor); Frei Jesuíno do Monte Carmelo (pintor); João Álvares Correa (pintor); João Batista Primoli (arquiteto); João de Deus Sepúlveda (pintor); João Nepomuceno Correia e Castro (pintor); Joaquim José Codina (Pintor); José Cardoso Ramalho (arquiteto); José Coelho de Noronha (escultor); José Custódio de Sá e Faria (arquiteto); José Fernandes Pinto Alpoim (arquiteto); José Joaquim da Rocha (pintor); José Joaquim Freire (Pintor); José Patrício da Silva Mando (pintor); José Teófilo de Jesus (pintor); Manuel Cardoso de Saldanha (arquiteto); Manuel de Brito (entalhador); Manuel Ferreira Jácome (arquiteto); Manuel Francisco Lisboa (arquiteto); Manuel Inácio da Costa (escultor); Manuel Rebelo de Souza (pintor); Mestre Valentim (arquiteto), Miguel Pereira da Costa (arquiteto) e Silvestre de Almeida Lopes (pintor).

O Barroco brasileiro tornou-se uma linguagem artística presente até mesmo nas festas populares brasileiras; no teatro jesuítico onde vemos, por exemplo, as imagens de roca ou as de vestir; nas esculturas; pinturas, decoração e arquitetura. Esse Barroco da colônia é uma arte que mistura amor e dor. Tem um quê de Gótico e às vezes prenuncia o Expressionismo. É ímpar.

O Século XVIII apagará suas luzes em pleno esplendor do Barroco brasileiro: de norte a sul, em todo o território nacional.

Século XIX

por Pedro Jacintho Cavalheiro

"Passeio" de Debret

O Século XIX trouxe mudanças que poderiam ser comparadas às dores de crescimento da pré-adolescência. Se a revolução francesa, ocorrida no século XVIII, foi para o mundo ocidental um ritual de passagem de sua infância, o Século XIX viveria profundas turbulências antes de assimilar os conceitos fundamentais para uma nova ordem mundial, baseada nos direitos humanos. No horizonte do velho mundo, o Século XIX amanhece com um brilho que ofuscaria a luz daquelas idéias revolucionárias: Napoleão Bonaparte. Assim, em 1804, Napoleão se faz coroar Imperador da França. No mesmo ano, na Espanha, o pincel irreverente de Francisco Goya pinta a Maja Desnuda e a Maja Vestida. Por que mencionar a França? Por que mencionar Goya? Veremos a seguir.

O Brasil vivia nesse momento o esplendor do Barroco. Entre 1800 e 1805, o Aleijadinho cria sua famosa série dos Profetas; entre 1800 e 1809, Mestre Ataíde pinta o forro da nave da Igreja de São Francisco em Ouro Preto. O Barroco brasileiro adquirira feições próprias: as feições de uma nova cultura emergente. Em 1800 acontece a primeira iniciativa de ensino de arte no país com a Aula Pública de Desenho e Figura, no Rio de Janeiro, tendo por regente Manuel de Oliveira.

Em 1806, em Paris, na praça de l’ Étoile, inicia-se a construção do grande Arco aos Triunfos de Napoleão e em 1807 seus exércitos invadem Portugal. A família Real portuguesa retira-se para o Brasil com toda a Corte, chegando em nossa terra em 1808. No mesmo 1808 o povo de Madrid se insurge contra o exército francês que, reforçado por mercenários mamelucos e couraceiros, para compensar suas grandes baixas, ocupava a capital espanhola. O pintor Francisco Goya pinta esse momento de coragem na obra "El 2 de mayo de 1808 em Madrid", coragem que será punida com o fuzilamento tácito, no dia seguinte, dos generais improvisados dentre o povo madrilenho. Goya registra esse fato entre 1814 e 1815 na obra “Os fuzilamentos do Três de Maio”.

Na América colonizada, crescem os movimentos libertários: no mesmo ano de 1808 Simão Bolívar ocupa Caracas e em 1810 acontece a insurreição geral na América espanhola.

Entre 1810 e 1814, Goya realiza sua série de gravuras “Os desastres da Guerra” onde documenta de forma jornalística as atrocidades cometidas na invasão da Espanha.

Em 1812 Napoleão marcha para a Rússia onde sofre uma importante derrota: dos 610 mil soldados arregimentados nessa campanha, apenas 100 mil sobreviveram. A invasão da Espanha e da Rússia praticamente exauriu todos os recursos da França.
Era o começo do fim. Em 1814 Napoleão renuncia pela primeira vez, com a tomada de Paris pelos russos e prussianos. No ano seguinte Napoleão, aclamado pelo povo, retorna a França e é restabelecido no poder. No entanto seu governo durou apenas cerca de 100 dias, quando foi derrotado na batalha de Waterloo e forçado a abdicar definitivamente.

A situação em Portugal está confusa e D. João VI eleva, em 1815, o Brasil à categoria de Reino Unido à Portugal e Algarves.

Com a queda de Napoleão Bonaparte, a Europa vive um período de caça a seus aliados. Assim, em 1816, um grupo de bonapartistas, liderado por Joachim Lebreton, homem que fora o Secretário Perpétuo da Classe de Belas Artes do Instituto Real da França e Conservador do Louvre e que fora destituído de seu cargo por sua recusa em devolver obras obtidas às custas dos espólios de guerra e da ocupação francesa, chega ao Brasil sob a proteção de D. João VI. Era a famosa Missão Artística Francesa: a maioria de seus membros artistas, alguns não.

A Missão Artística Francesa encontra no Brasil um Barroco vivo, vigoroso e dotado de autenticidade. A despeito disso, trabalha para introduzir o Neoclassicismo em nossa terra. A vinda da Missão Artística Francesa desagradou a todos: à corte portuguesa que não entendia porque D. João VI teria dado guarida a correligionários do inimigo vencido; aos artistas locais que sentem a imposição do neoclassicismo; ao povo que, de alma, por assim dizer, barroca por quase 200 anos, deve aceitar a imposição da nova estética que agora adornaria até mesmo as festas populares.

Esse é um contexto histórico de conhecimento imprescindível para que se entenda o processo de desenvolvimento de nossa arte e de formação de nossa cultura. A Missão Artística Francesa nos deixaria um importante legado. Contribuições de alguns membros da Missão ajudam-nos hoje a conhecer como era o Brasil daqueles tempos. Esse é o caso de Jean-Baptiste Debret, que embora não fosse um expoente da arte na França, tornou-se um repórter iconográfico do dia-a-dia de nossa gente nos tempos do Brasil colônia. A forte influência neoclássica, embora passasse a ser predominante, conviveria com as influências do Barroco, as dos povos africanos, dos povos indígenas, e de todas as outras culturas que vieram compor o caldo cultural brasileiro até que ele entrasse em ebulição com a semana de 22.

Geograficamente distante da Europa, em um tempo sem telecomunicações, a colônia é também mantida distante dos movimentos renovadores da arte ou, antes, da própria idéia de renovação. Assim, o desenrolar dos fatos artísticos no velho continente quase não seriam percebidos por aqui.

Já em 1816 a Missão Artística Francesa organiza e dirige a Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios, onde ensinam arte segundo cânones neoclássicos. Em 1817 chega ao Brasil o pintor neoclássico austríaco Thomas Ender na expedição chefiada pelo Barão de Langsdorff, que trouxe Johann Von Spix e Carl Von Martius, dois dos maiores pesquisadores da fauna e flora brasileira. Ender realizará importante documentação iconográfica do cenário brasileiro. Enquanto isso, no mesmo ano na França, Théodore Géricault começa a pintar sua “Balsa da Medusa”: o Romantismo começa a tomar o espaço do Neoclassicismo.

Em 1821 a Corte retorna a Portugal e chega ao Brasil o artista alemão Johann-Moritz Rugendas, para integrar a missão de Langsdorff. Rugendas será outro importante repórter iconográfico do cotidiano do Brasil nascente.
Em 1822 é declarada a Independência do Brasil e na França Eugène Delacroix, outro mestre do Romantismo, apresenta sua obra “A Barca de Dante”.

A história não dá saltos e as transições acontecem em processos mais ou menos lentos. Na Europa o Romantismo convive com o Neoclassicismo. Em 1826 a Escola Real das Ciências, Artes e Ofícios Por aqui, transforma-se na Imperial Academia e Escola de Belas Artes, sob orientação dos homens da Missão. O Barroco ainda conviveria com o Neoclassicismo em manifestações artísticas, como na obra “Ceia” de Mestre Ataíde, pintada em 1828 no Seminário do Caraça. Em 1829 acontece a primeira exposição pública de arte no Brasil, organizada por Debret.

Em 1830, na França, acontece uma revolução de três dias que depõe Carlos X, que suspendera a liberdade de imprensa, dissolvera a Câmara e modificara as eleições. Esses dias entrariam para a história com o nome de “As três Gloriosas”. No Brasil, D. Pedro I abdica em 1831, sob a pressão do povo que defendia a necessidade de um governo republicano e da imprensa que pregava “o dever sagrado da resistência à tirania” e se retira para a Europa. Embora a tônica fosse a liberdade, o momento histórico do Brasil e da França, guardam diferenças de maturidade com nações e como povos.

Em 1834, na França, Delacroix exibe seu “As Mulheres de Argel”, resultado de sua visita ao Marrocos em 1832, onde executou uma série de desenhos e aquarelas sobre os costumes pitorescos dos árabes. Da mesma forma, em 1834, Debret publica na França seu livro “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil” com aquarelas sobre o novo mundo. Assim também o fez Rugendas, publicando em 1835 o seu “Viagem Pitoresca Através do Brasil”. O Exótico era apelo mais forte dessas obras. A diferença fundamental entre elas está no fato que Rugendas e Debret apresentam trabalhos de orientação Neoclássica e Delacroix, um trabalho Romântico influenciado por Géricault.

Em 1840, D. Pedro II torna-se Imperador do Brasil, depois de ter sua maioridade declarada. Em 1845, instituiu o prêmio de viagem à Europa, que levou para estudar especialmente na França vários de nossos artistas. Embora a formação oferecida fosse Neoclássica, ir até lá e ver o que estava acontecendo no universo das artes, acabaria por trazer novas influências para a arte brasileira. Durante o Século XIX, surgiriam na Europa artistas como William Turner que se libertam da linguagem Neoclássica enfurecendo a crítica e, ao mesmo tempo, obtendo grande sucesso junto ao público. Surgem movimentos artísticos como o Impressionismo, o Realismo, o Expressionismo. Assim veremos na produção artística dos grandes mestres brasileiros alterações e atrevimentos, em relação ao rígido Neoclassicismo, que embora não lograssem uma mudança radical, preparariam o solo das artes para as propostas do Modernismo.

Foram expoentes do período os artistas: Pedro Américo, Vitor Meireles, Zeferino da Costa, Almeida Júnior, Rodolfo Amoedo, Goerge Grimm y Gomes, Castagneto, Rodolfo Bernardelli, Henrique Bernardelli, Belmiro de Almeida, Décio Vilares, Modesto Brocos, João Batista da Costa, Antônio Parreiras.

Primeira Metade do Século XX

por Pedro Jacintho Cavalheiro


Na Europa o Século XX inicia ao sabor da percepção dos primeiros efeitos colaterais da revolução industrial e no clima tenso que anunciava a Primeira Guerra Mundial que eclodiria em 1914. A arte está em ebulição. A fotografia, surgida no século XIX, tornou-se uma realidade e a reflexão sobre a função da arte e do artista faz-se mais presente. Em 1900 acontece em Paris a grande Exposição Universal. Um evento que marcaria, especialmente com a retrospectiva de Rodin em pavilhão anexo, o despontar do material como centro da obra ao lado do tema. A linguagem plástica colhe a liberdade semeada pelos impressionistas, alguns de seus antecessores e seus pósteros do século XIX. É emblemática desse momento a frase de Maurice de Vlaminck, um dos artistas participantes da Exposição Universal de Paris de 1900: “Com meus cobaltos e vermelhões, eu quero botar fogo na Escola de Belas Artes”.

No Brasil a expressão plástica inicia o século ainda subordinada aos cânones acadêmicos impostos a partir da vinda da Missão Artística Francesa. Já temos por aqui atrevimentos, ensaios de libertação da imposição acadêmica, como em Henrique Bernardelli, Lucílio de Albuquerque e Eliseu Visconti, por exemplo. Nossos artistas vão à Europa desenvolver seus estudos, têm contato com as novas correntes e passam a experimentar linguagens como a impressionista e a pontilhista. É importante ressaltar que não apenas no Brasil, mas quase em todos os países trilhava-se os caminhos acadêmicos. A exceção é Paris. A capital francesa é o laboratório das grandes inovações para onde convergem artistas de todo o mundo. De volta ao Brasil, muito embora como epígonos de um fazer desassociado dos contextos geradores dessas inovações, muitos artistas procuram, à medida do possível, ousar. Invariavelmente os que ousam são maltratados pela crítica e amados pelo público. Como aconteceu, por exemplo, com Antonio Parreiras que em 1925 foi eleito o mais popular pintor brasileiro, tendo conquistado fama e riqueza.

Mas que Brasil é esse da primeira metade do século XX?
Em 1900 concluí-se a construção do prédio ocupado hoje pela Pinacoteca do Estado de São Paulo que fora projetado por Ramos de Azevedo, em 1897, para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios, instituição fundada por técnicos ingleses que vieram ao Brasil para construir a ferrovia da “São Paulo Railway Company”, hoje Santos-Jundiaí por onde trafegam os trens de passageiros da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Tendo resolvido viver no Brasil, fundaram uma escola de alto nível para seus filhos. Foi o primeiro prédio em alvenaria de São Paulo. Os tijolos foram importados da Inglaterra porque não existiam olarias por aqui. A São Paulo das grandes edificações começa a surgir com essa obra em 1900.
No início do século, movidos pela peste bubônica que entra pelo porto de Santos, funda-se o Instituto Soroterápico Municipal no Rio de Janeiro, mais tarde Instituto Oswaldo Cruz e o Instituto Butantã na cidade de São Paulo vinculado ao Instituto Bacteriológico, hoje Instituto Adolpho Lutz. A Belle Époque brasileira não é uma época tão bela assim, embora iluminada pelo estado de espírito otimista reinante entre a proclamação da República e a primeira guerra e pelas obras de grandes mestres como Rodolfo Amoedo, os irmãos Carlos e Rodolfo Chambelland, Eliseu Visconti, os irmãos Rodolfo, Felix e Henrique Bernardelli, Antonio Parreiras, Belmiro de Almeida, os irmãos João e Arthur Timóteo da Costa, o casal Georgina e Lucílio de Albuquerque, Pedro Weingärtner, Henrique Cavalleiro, Eugênio Latour, Pedro Américo, Zeferino da Costa entre outros. Alguns deles participaram da Exposição Universal de Paris de 1900: Pedro Américo, Pedro Weingartner e Eliseu Visconti, contemplado com medalha de prata.

A primeira metade do século é de grande ebulição na vida política e nas artes. Uma ebulição diferente da vivida na Europa no mesmo período, onde emergem inúmeros novos movimentos artísticos como o Fauvismo, o Futurismo, o movimento Baue Reiter (Cavaleiro Azul), o Cubismo, o Suprematismo, o Construtivismo, o Neoplasticismo, o Dadísmo, a Bauhaus, o Realismo, o Surrealismo, o Simbolismo, o o Abstracionismo, entra em cena o Ready Made... Embora sem a mesma profusão de “ismos” no Brasil, a primeira metade do século é de uma ebulição profunda e fundamental para a construção de nossa identidade. De um lado o projeto encetado pelo diretor do Museu Paulista, o historiador Affonso d’Escragnolle Taunay que encomendou painéis com criação de cenas históricas a Henrique Bernardelli ("O ciclo da caça ao índio" e, posteriormente, "A retirada do Cabo de São Roque"); a Rodolfo Amoedo (um painel onde um chefe bandeirante presidisse uma cena de varação de canoas e outro em que escalasse uma montanha aurífera) com o objetivo de realizar a criação de um documento histórico iconográfico para o Brasil, quando do primeiro centenário de nossa independência. Como já acontecera com a obra histórica de Pedro Américo. Buscava-se criar no imaginário coletivo uma visão heróica de nossa história, através da arte. De outro lado é colocada na mesa a discussão sobre a verdadeira identidade cultural brasileira a partir da Semana de Arte Moderna de 1922. Passamos pela revolução constitucionalista de 1932, quando José Washt Rodrigues cria o brasão de São Paulo, pela imposição do Estado Novo por Getúlio Vargas em 1937 e pelos efeitos da Segunda Guerra Mundial ocorrida entre 1939 e 1945, ano em que Getúlio é deposto.

Os artistas ligados ao movimento modernista brilham em sua revolução artística e intelectual, não por trazerem necessariamente algo novo em termos de linguagens plásticas, se considerarmos a Europa, mas pela reflexão urgente para um país novo e ávido de entender seu próprio processo histórico. Assim, inscrevem seus nomes na história da arte brasileira, os pintores Anita Malfatti, Di Cavalcanti, John Graz, Vicente Rego Monteiro, Zina Aíta, Ferrignac (nome artístico de Ignácio da Costa Ferreira), Alberto Martins Ribeiro, João Fernando de Almeida Prado, Osvaldo Goeldi, Antonio Paim Vieira; os escultores Victor Brecheret, Wilhelm Haerberg, Hildegardo Leão Veloso; os arquitetos Antoni Garcia Moya e Georg Przyrembel; os músicos Villa-Lobos, Guiomar Novais, Ernani Braga, Frutuoso Viana, Paulina d’Ambrosio, Lucília Villa-Lobos, Alfredo Corazza, Pedro Vieira, Antão Soares, Orlando Frederico e a dançarina Yvonne Daumerie. Discursando sobre o ideário estético apresentado na semana, estiveram Graça Aranha, Ronald de Carvalho, Menotti del Picchia e Mário de Andrade.

Agora, de um movimento nascido no seio da cultura brasileira, a Semana de Arte Moderna de 22, o Brasil veria surgirem desdobramentos, como o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, em 1924, o Manifesto Antropofágico, em 1928, ambos de Oswald de Andrade. As novas propostas da segunda geração modernista, não como simples epígonos distantes dos contextos sociais e históricos geradores dos novos movimentos, mas como o resultado de uma fervura abrandada que assimila, digere e produz algo autêntico a que chamamos de cultura. A arte brasileira não seria mais a mesma e estava pronta para uma nova etapa perante o mundo: não só a de assimiladora das correntes européias, mas de participante com sua identidade caleidoscópica.

O florescimento de um novo tempo na arte brasileira traz nomes como Oscar Niemeyer, Portinari, Rebolo, Djanira, Milton Dacosta, Aldo Bonadei, Pancetti, Bruno Giorgi, Flávio de Carvalho, Clóvis Graciano, José Antônio da Silva, entre outros. O pincel de Lazar Segall, precursor do modernismo brasileiro, grita os horrores da guerra em seu “Navio de Emigrantes”, 1939-1941.

Passada a segunda grande guerra o Brasil veria nascer em 1947 o Museu de Arte de São Paulo; em 1948 os Museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo, que seria inaugurado no ano seguinte com a exposição “Do Figurativismo ao Abstracionismo”; no mesmo 1949 Portinari conclui seu corajoso e emocionante painel Tiradentes. O Brasil encontrara seu próprio rosto e, conseqüentemente, um caminho na arte.

Segunda Metade do Século XX

por Pedro Jacintho Cavalheiro


A segunda metade do Século XX marca a abertura da arte brasileira para o mundo. E que mundo é esse? É o mundo do pós-guerra no qual a guerra não passa: permanece latente e ameaçadora. A chamada “paz da bomba” inventa uma nova forma de guerra que se converterá na terceira guerra mundial: a guerra fria. Esse será o mundo do primeiro satélite soviético, o Sputnik em 1957; do primeiro satélite Norte-americano em 1958, o Explorer; do primeiro vôo orbital tripulado e da exortação que Yuri Gagarin inscreveria na história: “A Terra é azul”. O mundo do primeiro homem a pisar na lua, Neil Armstrong, em 1969. O homem olha para o espaço não como os artistas, mas como guerreiros em busca de supremacia bélica.

Na arte, porque manifestação da sensibilidade humana, a reação é conseqüência inescapável. O mundo assistirá ao primeiro Happening em 1952, realizado por John Cage; o início da Pop Art, por volta de 1955 e da Minimal Art em 1966, e a fortes manifestações de artistas que marcaram o século XX como Allan Kaprow, Andy Warhol, Christo Javacheff, Francis Bacon, Giacometti, Mark Rotko, Pablo Picasso, Victor Vasarely, entre tantos outros. Com o advento da guerra fria o mundo não seria mais o mesmo. E nem a arte.

No Brasil, tangida pelo impacto libertador do movimento modernista, a arte ensaia acrisolar sua modernidade. No Rio de Janeiro, em 1950, Afonso Eduardo Reidy projeta o Museu de Arte Moderna, criado em 1948; em 1951 vem à luz a I Bienal de Arte de São Paulo sobre a qual Oswald de Andrade, autor do Manifesto Antropofágico (1928) situado no eixo do movimento modernista, dirá “A Bienal é a coveira da Semana de Arte Moderna de 22”. No mesmo ano surge também em São Paulo o Grupo Concretista Ruptura; no Rio de Janeiro surge em 1952 o Grupo Concretista Frente; em 1957 inicia-se a construção da atual sede do Museu de Arte de São Paulo – MASP, criado em 1947, dando forma ao arrojado projeto de Lina Bo Bardi. Em 1959 acontece a primeira exposição de Arte Neoconcreta, no Rio de Janeiro; em 1960 Ferreira Gullar publica sua Teoria do Não-Objeto; em 1963 é criado o Museu de Arte Contemporânea – MAC, da Universidade de São Paulo, com acervo inicial doado pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM. Acontece em 1963, em São Paulo, o primeiro Happening do país organizado por Wesley Duke Lee. Muitos eventos históricos marcarão a segunda metade do século XX nas artes brasileiras, como o I Salão Esso de Artistas Jovens no MAM do Rio de Janeiro, em 1965; a I Bienal de Artes Plásticas de Salvador, em 1966; o Manifesto da Nova Objetividade Brasileira, de Hélio Oiticica, no MAM do Rio de Janeiro.
A Pós-modernidade e a tecnologia passam a compor o cenário das artes no final do Século. As vanguardas se sucedem. O mundo assiste, até o final do século XX, a 24 Bienais Internacionais de Arte de São Paulo.

Entre os muitos nomes da segunda metade do século XX, além dos já mencionados, estão Aldemir Martins, Antonio Bandeira, Antonio Dias, Antonio Henrique Amaral, Alfredo Volpi, Bruno Giorgi, Cândido Portinari, Carlos Scliar, Cláudio Tozzi, Di Cavalcanti, Di Prete, Djanira da Mota e Silva, Fernando Lemos, Francisco Brennand, Frans Krajcberg, Genaro de Carvalho, Géza Heller, Glauco Rodrigues, Heitor dos Prazeres, Hélios Seelinger, José Pancetti, José Roberto Aguilar, Lívio Abramo, Lygia Clark, Manabu Mabe, Marcelo Grassmann, Maria Bonomi, Maria Leontina, Mestre Vitalino, Milton Dacosta, Nélson Leirner, Rubens Gerchman, Samson Flexor, Tomie Ohtake, Victor Brecheret, Willys de Castro.

A Arte contemporânea está indelevelmente marcada pela influência do século XX. Agora é aguardar que o olho da história escrute significados na arte que fazemos hoje, com o necessário distanciamento do futuro.

O Século XXI

por Pedro Jacintho Cavalheiro


Chegamos ao Século XXI sem final do mundo e sem as mortes, algumas vezes até anunciadas, de linguagens plásticas, técnicas ou de materiais artísticos de uso tradicional. E nem poderia ser diferente. Afinal, não é o pentagrama que define o valor criativo de uma nova composição musical. Em outras palavras, não é o artefato que define o mentefato.

Estamos indubitavelmente diante de um tempo de pluralidade. As mais variadas formas de expressão plástica convivem nos dias atuais. Há espaço para tudo e falta espaço para quase todos. Os dias atuais são dicotômicos e essa dicotomia, também já não é lá tão atual assim. Por outro lado, até mesmo dentro das Bienais Internacionais de Arte de São Paulo, um dos mais importantes eventos artísticos do mundo, vemos manifestações artísticas que, embora em muitos casos impactem, repetem fórmulas já bem conhecidas no Século XX.

Se pensarmos como comensais que procuram sempre um prato novo no mesmo restaurante, acabaremos por achar que nada mais está por fazer. Que já provamos de tudo. Que as possibilidades criativas estão esgotadas. Mas esse pensamento é fruto de um momento de libertação no curso da história da arte: o da profusão de “ismos” ocorrida no Sáculo XX. As expectativas dos comensais da arte voltaram-se para o surgimento do novo “ismo” que haveria de romper com tudo o que veio antes. Porém, deparamo-nos com o esgotamento dessa criatividade de guerrilha. Não há mais Instalação que nos surpreenda. Não causa espécie o Grafiti ou a Street Art. Já começa a virar rotina a Arte Eletrônica ou a Internet Art. Afinal, até mesmo a expressão “tecnologia de ponta” perde a credibilidade diante dos lançamentos quase cotidianos das novidades tecnológicas, expostas nas vitrines de qualquer loja. Não nos pega desavisados uma Performance, por mais estranha que seja, ou um ReadyMade feito de materiais insólitos ou repugnantes. A Arte Ambiental espera um século mais respirável. Será? O que pode chocar mais do que certas imagens mostradas em um telejornal?

Por outro lado surpreende a resistente contemporaneidade do aparentemente velho como, por exemplo, a Arte Primitiva em franca vitalidade nos quatro cantos do mundo.

O que é o novo em matéria de arte? Como falar da arte do Século XXI quando ele ainda está abrindo os olhos para a vida? Como dissemos em textos de períodos anteriores, a evolução não dá saltos. Acontece paulatinamente e requer a maturação do tempo. Não existe evolução “Prêt-à-Porte” ou “transição em pó”, à venda em frascos nas lojas de suplementos alimentares. É temeroso decretar agora o que é bom ou mal em arte no exato momento em que se vive. Quantos críticos do passado fizeram isso com seus contemporâneos para depois cair no ridículo? Por outro lado, é do ofício do crítico fazer a crítica e não se pode abrir mão do direito e, no caso, do dever de manifestar opiniões. O fato é que, definitivamente, os processos evolutivos humanos que se manifestam no sintoma chamado “arte”, desconhecem os calendários com suas viradas comemoradas de século. O processo se desenrola naturalmente e mudanças na arte acontecem quando mudanças sociais acontecem e porque acontecem.

Para que se tenha uma visão absolutamente clara sobre a produção artística de nossos dias, é necessário esperar que esses dias passem. Precisamos de distanciamento histórico. A verdade acaba sendo invariavelmente consagrada pelo tempo. A partir dessa perspectiva o que todos nós, pesquisadores, estudantes, promotores e apaixonados pela arte em geral, podemos buscar na produção de um artista é sua verdade. Há que existir verdade na obra de arte. Refiro-me à sinceridade de propósitos, à paixão, à honestidade. Ou seja, devemos buscar o mentefato autêntico independendo da técnica ou material empregado. O artefato tornou-se o detalhe da arte e, embora deva ser igualmente honesto, não é mais a pegada do artista na areia do tempo. Legitimidade talvez seja a palavra que resuma a boa obra de arte. E não me refiro aqui a uma obra não-falsificada. Refiro-me à legitimidade de propósitos de alguém que assumiu responsavelmente seu papel de artista no cenário do mundo.

Dentro de uma perspectiva de construção do futuro, o melhor a fazer no momento é criar espaços sociais, físicos e imateriais, para que a arte se desenvolva, se mostre e para que o artista produza. É preciso fomentar a arte. É necessário abrir espaço para o novo: não para o novo prato, voltando ao restaurante, mas para novos “Maîtres”. Não porque novos “Maîtres” sejam capazes de inventar novos legumes, novas frutas, novas carnes etc, mas porque podem inventar novos pratos com os mesmos ingredientes. Não se renova a arte apenas com o recozimento dos velhos pratos já de há muito postos à mesa. Também não se trata de rejeição ao velho, mas sim, de dar oportunidade e mercado para o novo. Quem sabe o século XXI traga essa novidade na arte brasileira: mercado e visibilidade para o artista plástico.

Agora, o futuro!

Quem sou eu?

Boa pergunta!

Desde a antiguidade clássica Sócrates (470 ou 469 a.C. – 399 a.C.) já sentenciava: conhece-te a ti mesmo! E passamos a vida imaginando que somos assim ou assado, enquanto a grande maioria dos homens não tem a menor ideia de como os outros lhes vêem, por exemplo, pelas costas ao caminharem pelas ruas. Nem a própria voz, o homem comumente sabe como soa para os outros, já que ele se ouve também pelo ouvido interno. Por isso é comum acharmos estranha nossa voz em uma gravação. Mas, as dos outros não.

Daí, dizer de mim o quê?

Meus títulos falam lá alguma coisa... mas, muito pouco sobre minha pessoa.

Sou mestre em Arte (que gosto de escrever com inicial maiúscula), pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, especialista em autenticação de obras de arte (história da arte técnica). Designer graduado de Produto e Designer Gráfico, também graduado e licenciado em Arte, Desenho e História da Arte. Patrimônio Artístico é minha outra especialidade. Jornalista e Repórter Fotográfico (fui). Professor universitário em disciplinas relacionadas à arte e história da arte, também incursionei pelas questões ambientais e acabei lecionando em curso de pós-graduação em Gestão Ambiental. Doutorando em Metodologia Nuclear, sobre sua aplicação à autenticação de obras de arte (arqueometria). Sou também apaixonado por linguística e professor de Esperanto. Aliás, todas as artes me pegam: na juventude cantei, atuei, arranhei instrumentos musicais e hoje sou artista plástico, cinéfilo e teatrófilo.

Mas isso é muito vago...

O que importa mesmo é que nasci na cidade de Santos e vivo na cidade de São Paulo há mais de 20 anos, onde bebo a paulicéia. Importa que comecei a desenhar aos 4 anos de idade e me lembro bem do primeiro desenho. Importa que aprendi os segredos da sombra e da luz com o olhar perdido nas árvores e jardins de minha cidade natal e aprendi perspectiva observando as linhas do canal 2, do bairro do Campo Grande até a praia. Observando a orla da praia aprendi o que é profundidade de campo. Importa que desenhava os telhados das casas e as árvores que via da janela da casa de meus pais e depois os postes e fios que interferiam na paisagem.

Importa que comecei e parei de aprender piano aos 13 anos quando comecei a trabalhar pra ajudar a família e passei a estudar à noite em escola pública. Mas, dei o troco: comecei a pintar telas com essa idade também. Minha fome de saber fazia-me ler enciclopédia até no banheiro. A “Enciclopédia Trópico”, “O Livro da Juventude” e o “Dicionário Ilustrado da Lello”, foram meus primeiros parceiros de descobertas. Viajava em suas páginas imaginando terras por mim desconhecidas. Ainda garoto, em um tempo sem Internet e TV em tempo real, sentava-me à beira do mar de Santos, olhava para o horizonte e me perguntava intrigado se poderia ser mesmo verdade que para além de todo aquele mar existiam terras com pessoas que falavam em códigos incompreensíveis para mim. Ah! Como me causava interesse o mistério das línguas! Que vontade intensa eu sentia de viajar até lá (fosse “lá” onde fosse), pra constatar tudo aquilo pessoalmente e aprender, aprender, aprender!

Aprendi a respeitar a natureza observando as ressacas do mar a açoitar os muros da Ponta da Praia, vendo suas águas invadindo os canais até transbordá-los e ouvindo meu pai dizer que aqueles navios, gigantes de aço, que via no porto, eram “cascas de nozes” em alto mar. E que o homem era uma formiguinha diante da força da natureza. O valor do trabalho tinha o cheiro do cais, onde o suor de meu pai e meu avô haviam se misturado ao açúcar-demerara e ao adubo à granel caídos por entre as pedras e trilhos de seu chão.

Aprendi o valor da liberdade correndo de bicicleta pelas ruas planas da cidade, pintando em telas meus sentimentos de amores frustrados e encantamento com a luz do sol que a tudo banha por lá. E aprendi a lutar por ela participando de passeatas pela queda do AI-5. Já era mais fácil, é verdade: não eram mais os tempos de chumbo. Portanto não sou herói nacional. Minha maior luta foi sobreviver com dignidade. E dignidade para mim era poder estudar.

O que importa é que aprendi a ter fé com minha mãe e a pensar sobre ela com meu pai. O que importa é que cresci ouvindo música dentro de casa: serestas, fados e principalmente tangos cantados com perfeição pelo meu pai, ao som de seu violão. Era um grande artista, o meu pai. Ele que era filho de espanhóis e não falara português até os 5 anos, me ensinou espanhol através de tangos. E comecei a descobrir novas línguas. Ele que nem curso primário completo tinha (só cursou até o equivalente ao 2º ano do ensino fundamental) falava o Português com perfeição, o Espanhol, Inglês e o Alemão. Acho que dele puxei o autodidatismo, a vontade de saber e o bom humor. A tenacidade, puxei de minha mãe, mulher de valentia ímpar.

O que importa é que aprendi a contar piadas e rir da vida, dobrar e não quebrar. O que importa é que aprendi a não desistir: se tiver que parar um projeto, faço mudança de metas e estratégias para um projeto melhor. O que importa é que casei, descasei, casei de novo e fiz uma família grande e bonita. Meus filhos são carinhas muito legais: dois meus, dois dela e dois nossos! Todos muito legais! O que importa é que aprendi que ser é mais importante que ter e que eu não sou aquilo que tenho. Por isso prefiro pensar que não tenho filhos, mas que sou pai deles. O que é o mesmo, mas não é igual. Importa é que aprendi que não é a vida que é passageira, mas sou eu o passageiro na vida. E por isso levo-a a sério. Mas sem sisudez, por favor!

Importa é que chegará o dia do meu “check out” e pretendo ter deixado algo para quem fica, seja na mídia que for, seja no campo das idéias, seja no campo do amor. Porque essa é a única forma de se levar algo da vida. Quero que ao chegar o dia de minha volta, eu possa repetir o gesto e a tranquilidade de Sócrates, manifestados em suas últimas palavras. Preso e condenado pelo Estado à morte por suicídio, injustamente, logo depois de beber calmamente sua cicuta, Sócrates disse com bom humor e ironia a seus discípulos: "Devemos um galo a Esculápio". O galo seria uma oferenda em agradecimento ao deus da medicina por tê-lo livrado do mal da vida e aberto novas portas com a dádiva da morte.

Mas enquanto esse dia não vem, estarei “blogando” por aqui e navegando no info-mar, porque navegar é preciso! E que o cyber-poseidon nos proteja!

Pedro Jacintho Cavalheiro

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Revista "O Correio da UNESCO"

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